O Bradesco BBI identificou 32 empresas listadas na América Latina que têm um acionista estrangeiro, também negociado em bolsa no exterior, com participação relevante ou de controle — uma configuração que pode abrir caminho para novas aquisições ou fechamentos de capital. O levantamento surge após operações como Santander Brasil e Brava Energia e aponta uma possível continuidade da consolidação corporativa na região.
Por que as subsidiárias latino-americanas entraram no radar
O movimento ocorre em um ambiente de M&A, sigla em inglês para fusões e aquisições, no qual grupos estrangeiros aproveitam a diferença de avaliação entre suas próprias ações e as subsidiárias latino-americanas. Quando a controladora é negociada a múltiplos mais altos e a empresa local está relativamente barata, a compra das ações restantes pode se tornar uma forma de ampliar o controle por um custo menor.
O cenário também é favorecido pelo baixo free float, parcela das ações efetivamente disponível para negociação, em muitos mercados da região. A presença de estatais, a menor participação de investidores institucionais e a forte atuação de pessoas físicas reduzem a liquidez e podem facilitar ofertas para adquirir os papéis que ainda estão dispersos entre os acionistas.
Os casos recentes que reforçam a tese do BBI
No Santander Brasil, a controladora espanhola lançou uma oferta para comprar aproximadamente 10% das ações em circulação da operação brasileira. Se concluída, a transação elevará o controle do grupo sobre a subsidiária e poderá reduzir ainda mais a quantidade de papéis disponíveis no mercado.
Na Brava Energia, a estatal colombiana Ecopetrol assumiu o controle da petroleira brasileira após uma oferta aos acionistas minoritários. Já na Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), a chinesa Chinalco e a australiana Rio Tinto se uniram para assumir o controle da produtora. Antes desses negócios, Carrefour fechou o capital do Atacadão, a CMA adquiriu a Santos Brasil e a MSC comprou a Wilson Sons.
Quem são os possíveis compradores
Entre os grupos apontados como potenciais “predadores” estão Ternium, InBev, BBVA e Heineken. A Ternium já tem relação com a Usiminas; a InBev controla a Ambev; o BBVA possui operações na Argentina e na Colômbia; e a Heineken é acionista da chilena CCU. Em situações assim, a multinacional pode avaliar se a compra das ações restantes simplifica a estrutura societária e permite maior integração das operações.
Isso não significa que as 32 empresas estejam em processo de venda ou que uma oferta seja iminente. A lista identifica estruturas acionárias que tornam uma aquisição possível. A decisão depende de preço, regulação, estratégia da controladora e interesse dos acionistas minoritários em aceitar a oferta.
Fundos ainda podem vender US$ 7 bilhões em ações
O estudo também encontrou 20 companhias latino-americanas nas quais fundos de private equity ainda mantêm participações que poderiam ser desinvestidas. Essas posições somam cerca de US$ 7 bilhões. A venda pode aumentar o número de ações disponíveis e melhorar a liquidez, mas também criar um overhang, pressão sobre os preços causada pela expectativa de novas ofertas de venda.
A lista inclui AGI, Inter, XP e, especialmente, OceanPact. A Smart Fit aparece como exemplo de empresa em que fundos aproveitaram a valorização das ações no último ano para reduzir participações. Para o investidor, o efeito de cada operação depende do tamanho da posição vendida, do preço e da capacidade do mercado de absorver os papéis.
O que observar nos próximos movimentos
Além das aquisições, o BBI identificou 32 empresas latino-americanas não listadas, avaliadas em mais de US$ 1 bilhão cada, os chamados unicórnios. Juntas, elas têm valuation estimado em aproximadamente US$ 67 bilhões, com base nos valores de suas últimas rodadas de financiamento. Fintechs e empresas de consumo predominam, com Rappi, QuintoAndar e C6 Bank entre os nomes destacados.
Para quem investe, os principais sinais a acompanhar são mudanças na participação de controladores, ofertas públicas, vendas de fundos e alterações no free float. A consolidação pode dar mais eficiência às empresas e destravar valor, mas também reduzir a liquidez e limitar as alternativas de negociação para os acionistas minoritários. A eventual abertura de capital dos unicórnios, em sentido oposto, poderia ampliar a oferta de ações na região.
