Um ataque hacker extraiu dados fiscais de 678.437 contas de pessoas físicas e empresas na França, em uma invasão aos sistemas da Direção-Geral das Finanças Públicas (DGFiP) ocorrida no fim de junho. O caso importa porque expôs informações sobre renda, retenção de impostos, endereços e imóveis, elevando o risco de tentativas de fraude e ampliando a pressão sobre o governo francês para reforçar a segurança de seus serviços digitais.

Quais informações foram extraídas

Os invasores tiveram acesso à renda tributável de referência, ao quociente familiar e à alíquota de retenção na fonte. Também foram consultados dados cadastrais, como endereços, e informações sobre imóveis, incluindo suas áreas.

Entre as empresas afetadas, estão dados como razão social e identificadores administrativos, incluindo o SIREN. O governo francês afirmou, porém, que não houve acesso a elementos que permitissem entrar nas contas pessoais dos contribuintes nem às declarações completas de imposto de renda.

Como o ataque foi descoberto

A diretora-geral da DGFiP, Amélie Verdier, afirmou que o invasor usou a identidade de um agente público. Em um primeiro momento, a administração avaliou que não havia ocorrido extração de dados.

A confirmação veio depois que o suposto hacker se vangloriou do roubo em 12 de agosto. A invasão foi revelada publicamente na sexta-feira (14), quando o governo informou que os acessos ilegítimos tinham sido usados para consultar e copiar informações fiscais.

Investigação terá frente criminal e técnica

A Procuradoria de Paris abriu uma investigação criminal conduzida pela unidade de cibercrime da polícia francesa. O objetivo é identificar como ocorreu a intrusão, apurar responsabilidades e verificar se houve participação de uma organização criminosa. Nesse caso, a legislação prevê pena mínima de cinco anos.

Paralelamente, o Ministério da Economia determinou uma auditoria técnica liderada pela Agência Nacional de Cibersegurança e Ciberdefesa (ANSSI). As conclusões serão encaminhadas às comissões de Finanças da Assembleia Nacional e do Senado, o que pode abrir espaço para mudanças nos controles de acesso e na proteção das bases públicas.

Governo prepara notificações individuais

Uma reunião de crise interministerial está prevista para segunda-feira (17), com o objetivo de avaliar o plano de comunicação e as medidas adicionais de proteção. As notificações individuais aos afetados também devem começar na mesma data.

As autoridades informaram que cada contribuinte será avisado sobre quais informações podem ter sido consultadas e receberá orientações de segurança. A medida é relevante porque dados fiscais e patrimoniais podem ser usados para tornar mensagens fraudulentas mais convincentes, ainda que o ataque não tenha permitido acesso direto às contas pessoais.

O que ainda precisa ser esclarecido

O número de 678.437 afetados foi detalhado em uma estimativa que aponta 392.867 particulares e 285.570 profissionais. O arquivo com os dados teria sido colocado à venda por milhares de euros, mas as autoridades ainda precisam confirmar a extensão da circulação dessas informações e identificar os responsáveis.

Também surgiu a alegação de uma segunda fuga, envolvendo cerca de 2 milhões de proprietários de imóveis e dados cadastrais de terrenos e parcelas. Essa ocorrência não foi confirmada oficialmente. Para investidores, empresas e usuários de serviços públicos, o próximo passo será acompanhar as notificações, o resultado da auditoria da ANSSI e eventuais mudanças nos protocolos de autenticação e acesso. O ministro David Amiel citou a adoção de autenticação de dois fatores para servidores, sistemas de detecção precoce de vazamentos e revisão dos controles, em resposta ao aumento dos ataques a serviços públicos e ao uso crescente de inteligência artificial.