O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou sua campanha à reeleição em 2026 com um discurso marcado pelo uso de chapéu, uma carta em vídeo dirigida ao próprio Lula de 1979 e referências à sua trajetória sindical. O ato, realizado no Estádio Municipal 1º de Maio, em São Bernardo do Campo, transforma a memória política do presidente em peça central da disputa eleitoral e apresenta as primeiras bandeiras econômicas e sociais da campanha.

Chapéu, saúde e a mensagem de continuidade

Lula iniciou o primeiro discurso em comício como candidato oficial à reeleição explicando que usava chapéu porque passou por radioterapia para tratar um câncer de pele e precisa evitar sol na cabeça. Em seguida, afirmou que retiraria o chapéu para cumprimentar o público, associando o gesto à homenagem aos trabalhadores reunidos na região onde iniciou sua trajetória sindical.

O evento também teve discursos do vice-presidente Geraldo Alckmin, do ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, da deputada Benedita da Silva e das candidatas ao Senado por São Paulo Simone Tebet e Marina Silva. A composição do palanque reforçou a tentativa de apresentar a candidatura como uma frente ampla, com nomes de diferentes setores da base governista.

Vídeo recupera Lula do movimento sindical

Antes do discurso, um vídeo mostrou Lula lendo uma carta destinada a si mesmo em 1979, quando participava das mobilizações de metalúrgicos. Na mensagem, o presidente afirmou que, 47 anos depois, não imaginava que venceria três eleições para a Presidência da República e teria a oportunidade de “reconstruir o Brasil”.

Ao mesmo tempo, Lula disse que ainda não está satisfeito e que o país está preparado para mais avanços. A estratégia conecta a imagem do líder sindical às realizações do atual governo e tenta apresentar a reeleição como continuidade de um projeto iniciado nas greves do fim dos anos 1970.

Indústria e comércio exterior entram no discurso

Alckmin afirmou que a política industrial do governo permitiu a retomada da produção de veículos em locais onde fábricas haviam sido fechadas durante a gestão Jair Bolsonaro. Citou a instalação da GWM no local onde funcionava a Mercedes-Benz, em Iracemápolis, e da BYD na antiga fábrica da Ford na Bahia. Também mencionou a produção da Troller no Ceará, sem detalhar novos investimentos.

O vice-presidente destacou ainda o crescimento das exportações e os acordos comerciais do Mercosul com Singapura, com a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA) e com a União Europeia. Na prática, acordos desse tipo podem ampliar o acesso de empresas brasileiras a outros mercados, mas seus efeitos dependem da implementação das regras e da capacidade das companhias de competir no exterior.

Terras raras e direitos dos trabalhadores

Lula declarou que as terras raras — grupo de minerais usados em tecnologias como eletrônicos, baterias e equipamentos industriais — só serão negociadas pelo Brasil. A fala sinaliza uma postura de maior controle sobre recursos considerados estratégicos, embora o discurso não tenha apresentado regras, contratos ou medidas concretas para o setor.

Outra bandeira apresentada foi o fim da escala 6×1, modelo em que o trabalhador atua por seis dias e folga um. A mudança afetaria a organização das jornadas e os custos de empresas, mas ainda depende de definição legislativa e de um desenho que estabeleça como funcionariam as novas regras.

O que a campanha sinaliza para os próximos meses

O discurso também teve acenos a diferentes grupos sociais. Lula homenageou a ex-esposa, Marisa Letícia, agradeceu à atual esposa, Janja da Silva, e mencionou a mãe, dona Lindu. Ao falar às mulheres, defendeu o combate à violência e afirmou que elas não devem “baixar a cabeça” diante dos homens.

Para quem acompanha a economia, o lançamento ainda não produz alteração imediata em juros, impostos, emprego ou investimentos. O principal efeito é político: as propostas sobre indústria, minerais estratégicos e jornada de trabalho começam a formar a agenda econômica da campanha. Os próximos passos serão a apresentação de medidas mais detalhadas e a disputa por alianças nos Estados, enquanto o eleitor avalia o desempenho do governo e a viabilidade dessas promessas.