A consultoria britânica Capital Economics projeta que o Ibovespa ficará atrás de outros mercados emergentes em 2026, principalmente por causa do risco político associado às eleições presidenciais de 4 de outubro e pela própria composição da bolsa brasileira. Para a casa, os próximos dois meses devem ser de volatilidade mais elevada, enquanto investidores reavaliam sua exposição aos ativos do país.

Risco eleitoral deve aumentar as oscilações

O mercado brasileiro teve, na última semana, seu pior desempenho desde 2023. O Ibovespa caiu 3,27% e voltou a níveis observados em janeiro, em um movimento que ganhou força a partir de terça-feira, 11 de agosto. A Capital Economics afirma que não houve um gatilho único para a queda.

Entre as explicações citadas estão a redução da recomendação para ações brasileiras feita pelo JPMorgan e o aumento das preocupações com a disputa presidencial, após pesquisas indicarem ampliação da vantagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o principal adversário, Flávio Bolsonaro. A proximidade da eleição tende a elevar a sensibilidade dos preços a pesquisas, declarações de candidatos e sinais sobre a política econômica.

Tecnologia global também drenou recursos da bolsa brasileira

Além do componente doméstico, a consultoria avalia que a retomada das ações globais de tecnologia contribuiu para a saída de recursos de ativos brasileiros. Com a recuperação dos papéis ligados à inteligência artificial, investidores internacionais voltaram a direcionar parte do capital para esse segmento, reduzindo o fluxo para mercados como o Brasil.

Esse movimento é relevante porque o Ibovespa tem forte presença de empresas ligadas a bancos, commodities e economia doméstica, enquanto possui exposição menor ao setor de tecnologia que bolsas desenvolvidas. Assim, mesmo quando não há uma deterioração específica nos fundamentos brasileiros, a composição do índice pode limitar seu desempenho relativo.

Cortes de juros podem oferecer algum suporte

Um fator capaz de compensar parte da pressão política seria a possibilidade de o Banco Central promover mais cortes na Selic do que o mercado atualmente espera. A taxa básica foi reduzida em 0,25 ponto percentual na reunião de agosto do Comitê de Política Monetária, para 14% ao ano.

Juros menores tendem a reduzir o custo de empréstimos e financiamentos, além de diminuir a atratividade relativa da renda fixa. Isso pode favorecer ações, especialmente as de empresas mais dependentes de crédito e consumo. A ata do Copom, porém, reforçou que os próximos passos dependerão dos dados de inflação e atividade, sem indicar uma trajetória automática de cortes.

Inflação e atividade abrem espaço para nova redução

Na avaliação da Capital Economics, os dados divulgados na última semana fortaleceram o argumento para outro corte de 0,25 ponto percentual em setembro. A inflação acumulada em 12 meses caiu pelo segundo mês seguido em julho, para 4,4%, enquanto a estimativa da consultoria para a inflação subjacente de serviços recuou ao menor nível em dois anos.

Ao mesmo tempo, há sinais de perda de ritmo da economia. A projeção é que o Produto Interno Bruto (PIB) tenha crescido entre 0,4% e 0,5% no segundo trimestre, na comparação com os três meses anteriores, depois de avançar 1,1% no primeiro trimestre. A consultoria espera desaceleração adicional da atividade no terceiro trimestre.

O que observar até a eleição

Para quem investe, a combinação de juros, inflação, atividade e pesquisas eleitorais deve manter os preços sujeitos a movimentos bruscos. Uma perspectiva de cortes mais rápidos pode beneficiar a bolsa, mas o risco político pode limitar esse efeito ou provocar novas saídas de capital.

Para consumidores e trabalhadores, juros menores podem aliviar gradualmente o crédito, enquanto uma economia mais fraca tende a reduzir o ritmo de consumo e de contratações. Os próximos dados de inflação e atividade, a comunicação do Banco Central e a evolução da corrida presidencial serão os principais fatores a acompanhar antes da eleição de 4 de outubro.

Impacto para a sociedade

A avaliação sobre juros, inflação e atividade econômica pode afetar o custo do crédito, o rendimento de aplicações de renda fixa e o desempenho de empresas brasileiras. Uma desaceleração maior da economia também pode influenciar contratações, consumo e a arrecadação pública, embora o impacto direto dependa dos próximos dados e das decisões do Banco Central.