A Braskem registrou lucro líquido de R$ 3,33 bilhões no segundo trimestre de 2026, revertendo o prejuízo de R$ 267 milhões registrado um ano antes. Mesmo assim, suas ações passaram de alta de 8,05%, pela manhã, para queda de 7,68% no fechamento desta sexta-feira (14), a R$ 4,93. A virada mostra que, para o mercado, um trimestre forte não foi suficiente para afastar as dúvidas sobre a capacidade de recuperação financeira da petroquímica.

Resultado operacional supera expectativas, mas não todas as projeções

O Ebitda recorrente, indicador que mede o resultado da operação antes de juros, impostos, depreciação e amortização, alcançou US$ 1,04 bilhão, o equivalente a R$ 5,25 bilhões. O valor foi mais de cinco vezes superior ao do trimestre anterior e ficou 13% acima do consenso dos analistas.

A XP, porém, calculava um Ebitda ainda maior, o que significa que o número veio 6% abaixo da projeção da corretora. Já o lucro líquido, de US$ 664 milhões ou R$ 3,33 bilhões, superou a estimativa de US$ 406 milhões. A melhora foi favorecida pela recuperação dos spreads petroquímicos, diferença entre os preços dos produtos vendidos e os custos das matérias-primas, durante o trimestre.

Mercado teme que a melhora não se repita nos próximos trimestres

Os spreads começaram a perder força no fim do segundo trimestre, segundo a avaliação da XP. Como esse indicador afeta diretamente a rentabilidade da operação, uma redução pode provocar piora nos resultados dos próximos períodos, mesmo que a empresa mantenha suas atividades.

Os volumes também continuam pressionados. As vendas totais somaram 2,22 milhões de toneladas, queda de 2% em relação ao primeiro trimestre de 2026 e de 7% na comparação com o segundo trimestre de 2025. No México, a taxa de utilização da Braskem Idesa caiu para 43%, enquanto a unidade priorizou a preservação de caixa.

Dívida e caixa continuam no centro das preocupações

A alavancagem, relação entre a dívida líquida e o Ebitda dos últimos 12 meses, recuou de 18,18 vezes para 6,74 vezes. Apesar da melhora do indicador, a dívida líquida aumentou US$ 177 milhões no trimestre, chegando a US$ 8,66 bilhões.

O fluxo de caixa livre, dinheiro que sobra depois das atividades operacionais e dos investimentos, continuou pressionado. Pesaram o consumo de capital de giro, o aumento dos estoques, os investimentos, o pagamento de juros e os desembolsos relacionados ao acordo de Alagoas. Na prática, isso reduz a margem financeira para enfrentar períodos de menor rentabilidade.

Possível reestruturação explica a forte volatilidade

Para Otavio Faria, analista de renda fixa da Eleven Financial, o desempenho operacional foi positivo, mas os investidores estão concentrados nas discussões sobre uma possível reestruturação das dívidas. A oscilação entre alta e queda expressivas indica que a ação passou a reagir mais a eventos corporativos do que apenas aos fundamentos do trimestre.

Os cenários acompanhados pelo mercado incluem desde uma negociação direta com credores até alternativas mais amplas de reorganização financeira. A possibilidade de recuperação judicial também permanece no radar. Enquanto não houver maior clareza, o ambiente tende a continuar volátil e mais associado a operações especulativas.

O que o investidor deve acompanhar daqui para frente

Para Josias Bento, da GT Capital, os números acima das expectativas não eliminaram os desafios financeiros nem produziram uma solução definitiva para a companhia. O mercado deve observar a evolução dos spreads, dos volumes vendidos, da geração de caixa e das negociações com credores.

A reação desta sexta-feira não significa que o lucro foi desconsiderado, mas que os investidores estão atribuindo mais peso à sustentabilidade dos resultados e à estrutura de capital. O próximo passo da Braskem nas tratativas financeiras, somado ao desempenho operacional dos próximos trimestres, será determinante para definir se a melhora vista entre abril e junho representa uma virada ou apenas um alívio temporário.