O Ibovespa voltou a cair nesta sexta-feira (14), pressionado pelo temor de que a abertura do processo de reciprocidade contra os Estados Unidos evolua para uma guerra comercial, pelo ambiente externo mais fraco, pelo vencimento de opções, pelos balanços corporativos e pela saída de investidores estrangeiros. Às 11h17, o índice recuava 1,11%, aos 165.250,03 pontos, depois de ter aberto na máxima de 167.099,46 pontos.
Reciprocidade aumenta receio de escalada comercial
O governo brasileiro abriu o processo para aplicar a Lei de Reciprocidade em resposta à tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, sob a alegação de práticas comerciais desleais. A medida ainda não representa uma sobretaxa brasileira efetiva: o rito passa pela Câmara de Comércio Exterior (Camex) e pode levar tempo.
Mesmo assim, o mercado teme que o instrumento de negociação dê lugar a uma escalada. “O mercado não está precificando apenas a reciprocidade, mas o risco de uma escalada”, afirmou Cleiton Souza, sócio-fundador da Private Investimento. Para Ricardo Trevisan, da Gravus Capital, a iniciativa é, neste momento, mais uma sinalização diplomática do que uma retaliação imediata.
Exterior ajuda pouco e vencimento amplia a volatilidade
O desempenho mais contido dos mercados internacionais também contribuiu para a cautela. Embora Nova York apresentasse viés positivo após sinais de manutenção dos juros pelo Federal Reserve (Fed), o movimento externo não foi suficiente para compensar as preocupações específicas com os ativos brasileiros.
O pregão também coincide com o vencimento de opções, contratos que dão direito de comprar ou vender ações e índices em determinadas condições. Nesses dias, investidores ajustam posições e podem aumentar as ordens de compra e venda, o que tende a deixar as oscilações do índice mais intensas, especialmente em um mercado já pressionado.
Bancos e mineradora recuam; Petrobras opera na contramão
As ações de bancos caíam até 2%, com Banco do Brasil entre os destaques negativos. Santander Units subiam 1,07%. Vale recuava 0,7%, enquanto Petrobras avançava cerca de 0,7% tanto nas ações ordinárias quanto nas preferenciais.
Os investidores também acompanham os resultados de empresas como Braskem e Raízen. Balanços abaixo das expectativas podem aumentar a aversão ao risco porque revelam dificuldades de lucro, endividamento ou inadimplência em setores relevantes. Nesta semana, informações de BTG Pactual e Banco do Brasil sobre aumento da inadimplência já haviam elevado a preocupação com o crédito.
Estrangeiros retiram R$ 13,5 bilhões em agosto
A pressão sobre a Bolsa é reforçada pelo fluxo externo. Na quarta-feira, 12 de agosto, investidores estrangeiros retiraram R$ 1,632 bilhão da B3. Com isso, a saída acumulada em agosto chegou a R$ 13,561 bilhões. No ano, porém, o saldo ainda é positivo em R$ 22,846 bilhões.
O Ibovespa vinha de oito sessões consecutivas de queda até quinta-feira. Naquela altura, acumulava perda de 3,14% na semana e de 6,12% em agosto, em meio aos receios fiscais e à incerteza eleitoral. A retirada de capital estrangeiro reduz a demanda por ações brasileiras e pode pressionar também o real, elevando o prêmio exigido para investir no país.
O que acompanhar no restante do pregão
Além do desdobramento da Lei de Reciprocidade, o mercado deve monitorar os novos balanços, o comportamento dos investidores estrangeiros e os sinais sobre a política fiscal e as eleições. Para Gabriel Mollo, da Daycoval Corretora, a percepção de que o próximo governo terá dificuldade para promover um ajuste fiscal consistente já está incorporada aos preços como prêmio de risco.
Para quem investe, a combinação de vencimento de opções, resultados empresariais e fluxo estrangeiro pode manter a volatilidade elevada no curto prazo. Para consumidores e trabalhadores, o principal risco está em uma eventual escalada comercial: tarifas mais amplas podem afetar exportações, empresas e preços, enquanto uma resposta negociada tende a limitar esse impacto. A decisão efetiva sobre novas sobretaxas ainda depende do processo na Camex.
Impacto para a sociedade
A disputa comercial com os Estados Unidos pode afetar empresas brasileiras que exportam para o mercado americano e, se houver escalada, pressionar empregos e receitas no país. O câmbio também pode encarecer produtos importados e contribuir para a inflação, embora o processo de reciprocidade ainda esteja em fase inicial e não represente uma nova tarifa imediata.
