As ações do Banco do Brasil (BBAS3) caíram 4,16% nesta quinta-feira (13), para R$ 18,21, apesar de o banco ter registrado lucro líquido ajustado de R$ 3,9 bilhões no segundo trimestre de 2026. O resultado ficou acima das projeções, mas o avanço da inadimplência entre pessoas físicas e a pressão sobre os níveis de capital levaram o mercado a questionar a qualidade do lucro e a sustentabilidade do desempenho no segundo semestre.
Lucro cresceu, mas teve ajuda de fatores extraordinários
O lucro ajustado aumentou 14% em relação ao primeiro trimestre de 2026 e 3% na comparação com o segundo trimestre de 2025. A alta foi favorecida por despesas menores com provisões jurídicas, controle de custos, receitas extraordinárias e um custo de risco abaixo do esperado por parte dos analistas.
Para a XP, o resultado ficou 15% acima de sua estimativa e representou uma melhora clara em relação às expectativas. Bradesco BBI e Itaú BBA, porém, avaliaram que a surpresa positiva veio principalmente de itens não recorrentes, menores despesas legais, efeito tributário favorável e provisões inferiores à formação de novos créditos problemáticos. Por isso, classificaram o desempenho como um resultado de baixa qualidade.
Inadimplência de pessoas físicas dispara
O principal ponto de preocupação foi a carteira de pessoas físicas. A inadimplência acima de 90 dias nesse segmento subiu para 8,4% no segundo trimestre, ante 6,8% nos três primeiros meses de 2026. No banco como um todo, o indicador chegou a 5,61%, contra 5,05% no trimestre anterior e 3,96% um ano antes.
Os cartões de crédito concentraram a deterioração. Os atrasos superiores a 90 dias mais que dobraram e atingiram 14,6%, segundo a XP. O crescimento da carteira estaria sendo impulsionado principalmente pelo financiamento de saldos já existentes, e não pelo aumento do consumo, o que indica maior exposição a clientes com dificuldade de pagamento.
Provisões podem continuar pressionando os próximos trimestres
O índice de cobertura, que mostra quanto das perdas esperadas está protegido por provisões, caiu de 147,9% para 125,8% na carteira de pessoas físicas. Quanto menor essa proteção, maior a preocupação de que novas perdas exijam despesas adicionais no futuro.
O Itaú BBA informou que a formação de novos créditos inadimplentes entre pessoas físicas mais que dobrou na comparação trimestral, chegando a R$ 11,8 bilhões. Além disso, os atrasos acima de 30 dias continuaram crescendo, um indicador antecedente de novas provisões nos próximos períodos.
Carteira rural ainda exige atenção
No agronegócio, o banco apresentou avanços na cobertura das operações problemáticas. A proteção para saldos classificados nos estágios 2 e 3 chegou a 99,3%, enquanto as reservas para operações que ainda estão adimplentes também aumentaram.
Apesar disso, os sinais antecedentes permanecem pressionados. Os atrasos iniciais avançaram para 9%, enquanto R$ 66,5 bilhões em operações rurais têm prorrogação legal de prazo e R$ 39,3 bilhões estão enquadrados no programa BB Regulariza Agro. A menor cobertura por seguro rural em novas operações também pode dificultar uma recuperação rápida do segmento.
O que o resultado indica para quem acompanha BBAS3
O retorno sobre o patrimônio (ROE), medida de rentabilidade do banco, ficou em 8,3%, nível considerado significativamente inferior ao custo de capital pelos analistas. Isso significa que, embora o banco tenha apresentado lucro, a remuneração gerada para o acionista ainda não compensa adequadamente o retorno exigido para financiar a instituição.
Para os investidores, o próximo passo será acompanhar se a inadimplência de pessoas físicas continuará avançando, especialmente em cartões e consignado privado, e se o banco conseguirá recompor suas margens sem depender de efeitos extraordinários. A queda das ações mostra que, neste momento, o mercado está dando mais peso à qualidade do crédito e à situação de capital do que ao lucro nominal do trimestre.
